Page 6 - In Memorium Lúcio Craveiro da Silva ISESE
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No Curriculum Vitae de Lúcio Craveiro da Silva – desde o mas sucinto ao mais
desenvolvido – invariavelmente - se repete que foi Director do Instituto Superior
Económico e Social de Évora de 1965 a 1971. É verdade que assim foi, mas não
foi só isso. Visto de Évora, Craveiro da Silva foi o Fundador, Instalador e
Organizador do Instituto Superior Económico e Social de Évora com seus
dois Cursos: Economia (Direcção e Administração de Empresas) e
Sociologia (Ciências Sociais). Pôde fazê-lo, quando era Provincial,
respondendo ao apelo do Geral João Baptista Janssens na Instrução sobre o
Apostolado Social que, em 1949, escreveu e enviou aos jesuítas de todo o
Mundo, em 10 de Outubro do mesmo ano. É nessa perspectiva que deve ser
feita a leitura da criação do ISESE em Évora.


Com efeito, Janssens, embora reconhecendo o muito que os jesuítas tinham feito
até então, segundo “a consciência possível”, ao tempo, e as orientações
emanadas das Congregações 28 e 29, apesar dos obstáculos reais que a
Grande Guerra (1939 – 1945) opôs à sua acção, lembra o perigo de a
Companhia se ocupar, sobretudo “em dar solução” aos males presentes sem ter
examinado suficientemente, em termos científicos, a raiz desses males,
deixando-se ir atrás de um bem imediato e menor, preterindo o bem maior
e duradouro. São, certamente, diz, de louvar as obras instituídas em favor dos
pobres “que são incapazes de olhar por si”. A elas se costuma, por vezes,
apelidar de “sociais” e constituem uma forma de caridade “extraordinária”. Não
é delas que se ocupa, directamente, a Instrução sobre o Apostolado Social.
Esse era o significado do adjectivo social, preponderante na segunda metade
do século XIX, como diz Pierre Jaccard. Aplicava-se, não “ao conjunto dos
indivíduos que vivem em sociedade”, mas apenas à parte menos favorecida
desta. A ela se destinavam as obras sociais.

No século XX, “social”, tem outro significado; compreende tudo que diz
respeito à promoção e repartição dos bens materiais e serviços, entre os
membros de uma sociedade. Essa repartição é naturalmente determinada
pelas estruturas do regime social vigente. Talvez por isso, Aldo Dami, escreveu
em 1955: “o social é a existência que um regime permite ao homem” (Citado
por Pierre Jaccard, Introdução as Ciências Sociais, Livros Horizonte, Lisboa,
1974, pág.14). É sobre essas estruturas que é necessário actuar para as
defender ou subverter, se forem geradoras de injustiças.


Talvez devido a polissemia do termo social é que, entre os jesuítas (sobretudo
em Portugal), o social (apostolado social) se tenha continuado a identificar com
Obras Sociais em favor dos pobres, dos operários, dos velhos, dos doentes,
numa palavra, dos marginalizados. Janssens louva tudo isso, mas exorta a que
se actue sobre as estruturas.

Foi com esse intento que os Superiores traçaram a Lúcio Craveiro um roteiro de
especialização, diferenciado do dos outros jesuítas da sua geração, após uma
exigente formação sacerdotal (Filosófica e Teológica). Terminada ela, o seu
destino seria a docência na Faculdade de Filosofia de Braga, nos domínios da
Ética Social e Política que, a curto prazo legitimava essa distinção.
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