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VI Culturaa QUARTA-FEIRA, 19 de novembro de 2014 Diário do Minho






Reforma social capitalista funciona só para o inte- foram escritos em ocasiões diversas.
da empresa resse particular do capital. Daí uma Nestes últimos seis anos, em que
multidão de abusos de explorações Uma vez que a so- me encontrei perante as situações
A empresa é o local de encontro, e de crises, de tal modo que o ciedade, o traba- mais inesperadas e fui envolvido
por excelência, do trabalho com Estado teve de intervir, de fora, para pelas ocupações mais emaranhadas
o capital. Eis porque nela assenta, impedir esses abusos funcionais, lhador e o Estado e prementes, uma das actividades
na visão lúcida do Prof. Lúcio Cra- como o médico intervém para curar comparticipam nos que me levou alguns dos momen-
veiro da Silva, a urgência da sua um organismo enfermiço. […] tos mais intensos e quentes da
reforma, no sentido de a libertar A democratização da produção riscos como capi- minha vida refere-se a uma série
da tirania do lucro e de lhe confe- não alcançará por conseguinte os tal, é justo que o de conferências sociais que tiveram
rir a sua inalienável função social. seus objectivos se não começar como tema central a promoção da
por descentralizar e distribuir o lucro e mando não classe operária. Tive então ocasião
“A reforma da empresa tem como poder das empresas, sem destruir de proferir, roubando este tempo
fi nalidade dissolver o antago- a sua unidade essencial de orien- fi quem só no em- a outras ocupações absorventes,
nismo das classes, reconhecer a tação pelos que participam dos presário. mais de 30 conferências no centro
dignidade do trabalho (diretivo, interesses e dos riscos comple- e norte de Portugal.
técnico ou operário), libertá-lo mentares do capital, do trabalho Algumas destas conferências, depois
económica e socialmente, inte- e do bem-comum. Essa fórmula de retocadas e adaptadas, juntas
grá-lo na empresa e estabelecer de associação capital-trabalho tem com outros estudos, aqui fi cam
entre esta e o trabalho uma troca sido empreendida nem sempre com arquivadas a pedido de muitos dos
vital de interesses. êxito. Mais um problema que espera meus benévolos ouvintes e amigos.
Na empresa de tipo artesanal, solução efi ciente e generalizada. No tempo em que ainda jovem
o trabalhador tirava dos seus O que muito tem agravado a crise pude traçar planos para a minha
instrumentos de trabalho o seu da empresa é também a condi- vida de trabalho e de estudo, publi-
modo de viver. Era uma empresa ção de dependência excessiva quei outro livro, A Idade do Social,
dominada por uma ideia vital e criada ao trabalhador. O trabalho ensaio de interpretação sociológica
humana. Na empresa capitalista humano encontra-se deprecia- sobre a evolução da sociedade
e individualista, o oitavo pecado do, subordinado, quase um puro contemporânea, que seria como
mortal do liberalismo, o possuidor instrumento nas mãos do capital. que o plano inicial dos assuntos
do capital social vive senhoreado Constroem-se empresas, como que depois, mais tranquilamente,
pela ideia de rendimento e de dissemos, apenas com o fi m de fa- iria desenvolvendo e aprofun-
lucro. Por isso pretende para si o zer render os capitais; mas a em- dando progressivamente. Ora um
direito exclusivo de recolher todo presa, para ser uma obra humana, dos temas essenciais que pensava
esse lucro ou benefício e de dirigir não deve depender apenas de tratar mais detidamente, era este do
a empresa com o único objectivo uma sociedade económica de ca- movimento operário. Se as minhas
de remunerar o capital investido, pitais, que toma ao ‘seu serviço’ o múltiplas ocupações me não permi-
e não para dele viverem ele e os suor e esforço do homem só para tiram nem tempo nem sossego para
seus dependentes. fi ns lucrativos; mas deve também executar pormenorizadamente este
Segundo os criadores da empresa depender de uma comunidade de plano, contudo não extinguiram a
capitalista, o empresário ou pos- trabalhadores (dirigentes, técni- chama que em mim ateou a preocu-
suidor do capital social deve ser cos, operários) que tomem ao seu pação da crise social e o desejo de
o único a organizar e a receber serviço o capital. O capital, fruto contribuir, por pouco que fosse, para
os lucros, porque ele é o único a do trabalho e dos aforros, deve a solução dos seus problemas.
sofrer os riscos. permanecer na empresa; sem Por isso estas páginas devem ser
Esta afi rmação é simplesmente capital não pode haver empresa, consideradas, no aspecto tratado,
contestável. Junto com o em- como sem instrumentos não há como prolongamento daquelas
presário sofrem os riscos do ofi cinas nem fábricas; todavia não (especialmente dos capítulos II, III,
empreendimento: os credores, tem o direito de açambarcar só VII e VIII da Idade do Social).
por exemplo no caso de falência, para si o domínio despótico da Se este livro apresenta alguma origina-
a sociedade pelos refl exos que organização e do lucro. Deve até lidade, parece-me que se deve buscar
nela tem a prosperidade ou a crise estar subordinado ao trabalho, na sobretudo no seu método: antes de
económica, e operário pelo de- medida em que o económico está mais nada na averiguação concre-
semprego, acidentes de trabalho e sujeito ao humano. ta dos factos, depois na visão do
doenças profi ssionais, de facto mal É isto que se pretende na ‘demo- contexto sociológico e histórico, sem
assegurados pela legislação social. cratização’ da empresa (cf. J. Serve, esquecer o recurso imprescindível à
Além disso, o capitalista ou a «Au delá de l’Entreprise, vers la Dé- fi losofi a social e ao direito natural”.
empresa capitalista tende cada mocratie économiques», in Revue (O Movimento Operário, pp. 7-9) ◗
vez mais a libertar-se dos incon- de l’Action Populaire, n.º 49, Abril
venientes pessoais do risco e a de 1951, pp. 271-292). […]
passá-los ao Estado, às colectivi- A doutrina social cristã acolhe com
dades e ao consumidor, que sofre aplauso esta transformação da
com a protecção ofi cial e artifi cial empresa”.
dos preços e paga pelo menos a As massas caíram na conta de
maior parte dos direitos alfande- (A Idade do Social, Braga, pp. 245-248. que a liberdade sem a proprie-
gários proteccionistas.
Ora uma vez que a sociedade, o dade era uma palavra quase vã
trabalhador e o Estado compar- Razão, contexto e método
ticipam nos riscos como capital da obra “O Movimento Operário” e que, por outro lado, o acesso à
é justo que o lucro e mando não
fi quem só no empresário. Já por No extrato que se segue (do «Prólo- propriedade lhes estava vedado
esta razão se impõe a nova orga- go» da obra O Movimento Operário), pela rede compacta que formava
nização social da empresa. Lúcio Craveiro revela as motivações,
A empresa, além disso, sendo uma natureza e método que presidiram à a organização capitalista e bur-
organização social, que reparte edição deste livro.
os seus riscos pela coletividade, guesa da sociedade.
deve estar sujeita aos interesses “Os capítulos deste livro procederam
do bem-comum. Ora a empresa de uma unidade de pensamento, mas
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