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Diário do Minho QUARTA-FEIRA, 19 de novembro de 2014 Cultur V
Culturaa






António Vieira e Antero de Quen- leitores, e não a faríamos se ela salários tão escassos. Foi nesta Esse sentido da palavra demo-
tal, nos quais, confessa, «bebe- não fosse devida àqueles que ordem de ideias que a classe ope- cracia já se encontra nos gregos,
mos alguma coisa de humano e desejavam saber como é que rária exarou o seu programa das principalmente em Aristóteles,
de vital» – e cujos estudos que nos pudemos interessar por um 48 horas, do descanso semanal, que contrapõe à monarquia – o
lhes dedicou reuniu na obra pensador antagonista de ideias, da regulamentação do trabalho governo de um – e à aristocracia
Padre António Vieira e Antero de que se encontram no mais íntimo das mulheres e das crianças, dos – o governo de uma classe con-
Quental. Ensaios (Universidade da nossa inteligência e dos nos- seguros sociais, etc. siderada como escol – a demo-
do Minho, 1998). Que Vieira fosse sos trabalhos. Nunca a formação Mas houve ainda outra razão de cracia – o governo da multidão
uma das fontes em que Lúcio de um pensamento se limita à ordem mais humana e íntima, (Aristóteles, Política, II, cap. IV e
Craveiro saciasse a sua sede de infl uência de um só autor; e com que levou a classe operária para a V; Platão, República, I, cap. VIII).
inteligibilidade e de humanidade, Antero outros pensadores nos agitação social. Até então vivera na No entanto, a fórmula hoje mais
compreende-se; que se tenha ajudaram a modelar a nossa visão servidão ou num estado de inferio- repetida, a de Lincoln, é que
confessado discípulo de um impie- do mundo e do homem». ridade como as restantes classes de facto traduz melhor a nossa
doso crítico da pedagogia jesuítica populares, muitas das quais não ideia atual, quando falamos de
pré-iluminista, surpreende. O que (Antero de Quental. Evolução do encontraram o caminho da sua democracia: “de governo do
de Antero seduzia Lúcio Craveiro seu pensamento fi losófi co, pp. libertação e elevação por falta de povo, pelo povo, para o povo”.
era a atitude existencial de busca 12-13) coesão e força no campo político Esta fórmula, a que de propósito
de sentido e de luta por um ideal; e social. não chamamos definição, pare-
era a sede de metafísica e de sen- De repente, a Revolução Francesa ce simples e clara e no entanto
tido da existência. Lúcio Craveiro VI – Elogio da Filosofi a ofereceu-lhe um lugar de prima- se a queremos aplicar às rea-
não se cansava, pois, de recordar, zia nas instituições sociais e esse lidades históricas quase cada
porque a tinha bem inscrita na “Será lícito falar ainda hoje em facto foi sentido pelo trabalhador palavra suscita um problema.
memória, aquela pergunta radi- fi losofi a, quando algumas vozes como uma libertação. Ora todo Que se deve entender exacta-
cal de Antero, para a qual, assim perdidas reclamam, desde Nietzs- o homem que se liberta é natural mente por “povo” (demos)? A
formulada, não é fácil encontrar che, o fi m da fi losofi a? […] (p. 237) que se interrogue sobre o uso burguesia privilegiada da demo-
resposta numa qualquer ciência O logos da Grécia e o amor de dessa liberdade. As massas em cracia grega? A burguesia pro-
ou fi losofi a: quero saber para que Israel, sobretudo depois de Cristo, breve caíram na conta de que a prietária, como se realizou no
vim ao mundo... criaram o novo homem e a nova VII – Lúcio Craveiro da Silva liberdade sem a propriedade era liberalismo de meados do século
ordem que, desenvolvendo-se, e as QUESTÕES uma palavra quase vã e que, por XIX? A classe operária, como pre-
“Antero de Quental permanece deram à Europa dos séculos SOCIAIS outro lado, o acesso à proprieda- tende a democracia comunista?
vivo nos horizontes do moderno passados um lar fecundante de de lhes estava vedado pela rede Que signifi ca exatamente povo?
pensamento português. A atracção civilização e cultura. […] A nossa compacta que formava a organi- Passemos adiante – governo
que a sua personalidade, forte e civilização é fundamentalmente A trajetória zação capitalista e burguesa da pelo povo. Como é que o povo
rica, despertou nos contemporâ- devedora da mensagem religiosa da elevação das massas (1) sociedade. […] pode governar, a não ser na
neos, continuou a manifestar-se e humana de Israel. […] (p. 238). Foi quando este lastro materialista democracia direta, hoje con-
nas gerações seguintes; o seu Francamente, às vezes não per- Na longa história da elevação das da civilização burguesa daque- servada apenas talvez em dois
pensamento e a sua obra literária cebemos como os dirigentes dos massas que analisa, o autor rele- la época pairava no ambiente e cantões suíços? Pode dizer-se
têm sido frequentemente estu- cordelinhos do mundo moder- va, entre mais causas, o brutal e solicitava avidamente os homens com justeza que há governo do
dados, comentados e interpre- no – os políticos, os chefes das revoltante desequilíbrio entre os a estabelecer na vida a ‘cidade povo quando governa apenas a
tados. […] Embora neste ensaio multinacionais e dos meios de lucros da produção e as miseráveis celeste’, que as massas populares, maioria? A maioria opõe-se de
tenhamos procurado ser objecti- comunicação social, os empresá- condições sociais e económicas do sobretudo o operariado, começa- si às várias minorias e é portan-
vos, devemos confessar que ele rios, todos os senhores infl uentes seu trabalho. ram a emergir e a reclamar com to essencialmente inábil para
representou uma das infl uências – olvidam tão facilmente a sabe- violência a sua entrada no banque- obter a união pacífica, poderosa
mais profundas e duradoiras da doria dos séculos e dos grandes “A força oculta que moveu os tra- te da felicidade e da fartura, que e eficaz do governo e dos go-
nossa formação fi losófi ca. Logo pensadores da história humana balhadores a lançar por terra a or- os burgueses comiam lautamente vernados. O poder, passando à
no início do nosso curso fi losó- que ensinaram a abrir caminhos dem estabelecida foi, portanto, não e publicamente elogiavam, mas maioria, passa a uma fracção do
fi co, quando pela primeira vez que os engrandecem e mostram apenas e principalmente a fome, de que só queriam lançar algumas povo e não aos representantes
começámos a prender-nos e a também, directa ou indirecta- a inveja ou uma lei misteriosa que migalhas, como o rico avarento do do povo como tais.
ligar-nos aos problemas huma- mente, que há veredas que levam obrigasse sempre duas classes, de Evangelho, a uma enorme porção Várias dificuldades práticas se
nos, Antero de Quental apareceu a precipícios que nos amesquinham nível económico e social diferente, da humanidade: o proletariado.” apresentam também se quere-
a determinar certa orientação do ou nos desgraçam. Lições da história a estarem em desavença e em rixa, mos penetrar no conteúdo, em-
nosso espírito. Este “encontro” do pensamento e das consequências com a mesma necessidade com (A Idade do Social, pp. 58-60.) bora muito mais claro, da última
com Antero originou um diálogo das suas realizações! (…) (p. 242). que o cão briga com o gato; o que parte da fórmula de: governo
vivo que muitas vezes terminou Não basta aprender a fazer; mais sobretudo os levou ao protesto e para o povo. Governar para o
numa reacção. Mas foi dele que importante é saber pensar, por- à agitação foi a persuasão de que A trajetória povo não se deve entender nem
recebemos o entusiasmo pelos que quem sabe pensar realizará existia discordância e desequilíbrio da elevação das massas (2) para uns privilegiados da raça
problemas especulativos, foi ele melhor o que tem a fazer. entre as novas condições sociais pura como no nazismo, nem
que despertou o nosso gosto pelas Caindo na conta desta grande de um trabalho árduo economica- Eis como o Prof. Lúcio Craveiro da para os aderentes a um partido
amplas interpretações sintéticas e verdade, na Grã-Bretanha e nos mente mais rendoso e a realidade Silva inicia um brilhante exercício como no fascismo, nem para
históricas do pensamento humano, Estados Unidos, onde juntamente que já não exigia nem esse traba- pedagógico de análise semântica os que pertencem a uma classe
foi nele que descobrimos a neces- com assinalados desvarios des- lho tão duro e prolongado nem ao polissémico termo democracia como no sovietismo. Governar
sidade de uma integração social pontam brilhantes acertos, estão em projetos sócio-políticos dife- para o povo, se há-de ter algum
dos problemas, foi nele, fi nalmen- actualmente aproveitando alunos rentes (clássico ou formal, econó- sentido, signifi ca “uma organi-
te, que encontrámos o segredo da formados em fi losofi a para, junto mico-social e marxista). zação da sociedade civil, na qual
necessidade da Ética e da Moral e com alguma formação económica A nossa civili- todas as forças sociais, jurídicas e
aprendemos a nunca descurar o e social, se dedicarem a aconselhar “Democracia, de maneira ge- económicas, em posse do seu ple-
aspecto metafísico da realidade. e mesmo a gerir grandes empresas zação é funda- ral, como indica a etimologia, no desenvolvimento hierárquico e
Nesse sentido nos confessamos para situarem os seus problemas evoca a ideia de um povo que na proporção própria de cada uma
discípulos de Antero, pois nele de produção, trabalho e marke- mentalmente se governa a si mesmo ou, pelo delas, cooperam de tal modo para
bebemos alguma coisa de huma- ting nas complexas contingências devedora da menos, a de ascensão e partici- o bem comum que o último resul-
no e de vital. Não podemos recor- políticas, sociais e económicas do pação do povo ao exercício do tado da sua acção vem a ser mais
dar a pobre história de nós mes- mercado e competitividade inter- mensagem re- poder. Na prática, porém, esta particularmente vantajoso para as
mos sem encontrar nela vestígios nacional.» participação não se exerce dire- classes inferiores” (cf. Ch. Antoine,
do grande Poeta açoriano. ligiosa e huma- tamente senão no momento das Curso de Economia Social, Trad.
A confi ssão que acabamos de («Papel da Filosofi a, hoje», in Bio- na de Israel. eleições ou dos referendos, e o Port., I, 1904, p. 360).
fazer talvez tenha pouco inte- bibliografi a. Sobre a Universidade, governo fica depois entregue
resse para a maioria dos nossos pp. 237. 238. 242. 243). aos representantes eleitos. (A Idade do Social, pp. 62-64)
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