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Culturaa
IV Cultur QUARTA-FEIRA, 19 de novembro de 2014 Diário do Minho






cresceu com força defensiva con- Por outro lado, o tema é difi cultoso essa investigação enriquece e justi-
tra a grande ameaça maometana, porque a criação da União Europeia fi ca o seu ensino, em colaboração
que discutiu, pelas armas a própria dá uma volta á nossa história. Pro- Ser universitário é, acima de tudo, com os colegas e em diálogo com
existência da Europa. […] É neste voca uma atitude e regime legais os alunos, o seu trabalho reveste-
contexto europeu de “Império” e diferentes, apresenta novas autori- um serviço e uma vocação. Ora a se de um sentido universal, sem
Cristandade que aparece, cresce e dades longínquas e exige, até certo fronteiras nem limitações, pois a
se dilata Portugal. […] ponto, uma dobra do nosso senti- verdadeira vocação exige um ide- Universidade espalha e difunde,
mento tradicional de convivência. al que valha a pena e uma entrega com força persistente e incansá-
A União Europeia atual tem, na sua A nossa história, que é como quem vel, a luz do progresso a todos os
origem, uma união defensiva como diz a nossa vida ao longo de oito permanente e generosa. O ideal uni- recantos da vida desde a amplitu-
o foi nos primeiros séculos. Mas en- séculos, desenvolveu-se não digo de de do universo e o alento ilimitado
tão baseava-se na ideia de “Fé e Im- costas inteiramente voltadas para a versitário é a pesquisa constante e do espírito à constituição infi nitesi-
pério” contra o perigo muçulmano; Europa, o que seria falso, mas quase mal da matéria. A investigação tudo
hoje funda-se na ideia de defesa predominantemente interessada e rigorosa do mistério do Homem e da atinge, tudo renova. Sem ela, hoje
económica contra os colossos ame- envolvida nos horizontes do Atlânti- Natureza. Procurar saber, em última não haveria verdadeira civilização.
ricano e japonês. Ora uma união co e do Índico» (p. 27). Por isso, todo este drama da inves-
que assenta em bases económicas […] Agora, voltando a página, análise, o que somos, onde estamos tigação envolve profundamente a
é sobretudo uma união de interes- vamos ‘pensar a Europa’ em relação alma do universitário, dá sentido
ses materiais pois são esses que a Portugal no tempo presente. Nos e para onde vamos. ao seu trabalho e enriquece a sua
constituem a fi nalidade primordial alvores do século XXI, a nossa vida, vocação. […] Seria a negação da
da união económica. […] Entre a nossa política e o nosso olhar sua razão de ser, se a própria Uni-
nós, pouco percebe das razões da são levados progressivamente a versidade não oferecesse os meios
União Europeia quem afi rma, por voltarem-se principalmente para normais para a realização e desen-
exemplo, que ao construirmos as a Europa e apenas, mais como volvimento da investigação (…)”.
nossas vias de comunicação, nós saudade do que como horizonte de ropeia, já não é o ‘império’ como Para ‘pensar a Europa’ correctamen- («Tomada de posse como Reitor
é que oferecemos uma esmola ou interesses, para Além-Mar. […] Vieira e Fernando Pessoa o so- te, temos para o futuro de incluir eleito da Universidade do Minho»,
contribuição para a economia das A História, num safanão dos tem- nharam, mas um diferente onde por isso no nosso belo sentido de in Biobibliografi a. Sobre a Univer-
outras nações, quando lhes per- pos, transformou-se e com ela teremos de rea lizar a nossa vida e, convivência, o sentido da competi- sidade, p. 128.129).
mitimos, com o seu e nosso di- nós teremos de nos modifi car e se possível, os nossos sonhos. É tividade e do progresso fi nanceiro,
nheiro, o benefício incalculável de continuar a ser portugueses doutra que a União Europeia não é uma apelando para o espírito de aventu- «Sempre me senti bem nesta
poderem usar estradas largas para maneira. Por isso afi rmei que este pátria ‘completa’, como até aqui ra e de sacrifício que nunca nos fal- Casa, pois nunca deixei de ousar
o escoamento dos seus produtos problema da Europa é para nós estávamos habituados a defi nir tou na expansão para o Atlântico e ser, bem ou mal, um aprendiz de
que já inundam os nossos merca- presentemente difi cultoso e, acres- as pátrias. A União Europeia é que agora devemos aplicar na nova universitário. Ser universitário
dos. A única resposta adequada a cento ainda, exigente. Para o futuro, sobretudo uma união ou uma aventura da pesquisa e exploração não é propriamente um emprego
este desafi o será nós, aproveitando não sei; lá o verão os que por cá ‘pátria económica’ (perdoem-me dos mercados e da estruturação de nem equivale, em rigor do termo,
essas vias, escoarmos igualmente fi carem. Agora temos de estar aten- dizer pátria económica que não faz uma economia sólida que nos leve à a uma profi ssão. Ser universitário
as nossas exportações para os mer- tos à Europa continuamente e não sentido na nossa lídima expressão prosperidade das empresas e nos de- é, acima de tudo, um serviço e
cados exteriores. Se o não fi zermos, fenda dos embates das cíclicas crises uma vocação. Ora a verdadeira
‘perdemos o comboio’. […] Hoje, económicas. Podemos e devemos vocação exige um ideal que valha
as batalhas não se ganham tanto fazê-lo (p. 31). […] a pena e uma entrega permanente
na aventura das guerras quanto Deixando questões secundárias, e generosa. O ideal universitário
principalmente com as armas da embora importantes, não pode- é a pesquisa constante e rigorosa
ciência e competitividade econó- remos também, fi nalmente, dar do mistério do Homem e da Na-
mica e política. E neste ponto, com ao nosso povo, através das novas tureza. Procurar saber, em últi-
esses cursos relativamente recentes vicissitudes da União Europeia, a ma análise, o que somos, onde
[cursos de economia, de relações prosperidade económica que ainda estamos e para onde vamos. E
internacionais e de estudos euro- falta à sua riqueza humana». (p.32) para isso temos de investigar
peus], estamos certamente melhor ou lutar, com esforço contido e
apetrechados tanto nas empresas (Ser Português. Ensaios de Cultura usando um método rigoroso e
como na diplomacia. Portuguesa, pp. 27.28.29.31.32). exigente, por perscrutar e ten-
tar compreender esse mistério,
(Ser Português. Ensaios de Cultura chamemos-lhe assim, que nos
Portuguesa, pp. 9-19). IV – A diferença solicita e estamos certos de
específi ca nunca o ter alcançado comple-
“Há pouco assistimos, não sem do ser universitário tamente. […] Por isso, a vocação
emoção, ao encerramento da nossa – a investigação do universitário exige têmpera,
epopeia de Além-Mar. […] Mas rigor, resistência às dificuldades
agora, uma vez mais, se está trans- Para o Professor Lúcio, «Ser Uni- e certo espírito de aventura,
mudando o curso da nossa história versitário» não era um «emprego», desprendimento e inovação que
e encontramo-nos, por isso, numa não era uma «profi ssão», mas, é premiada pela compensação
encruzilhada. O Além-Mar d’Os acima de tudo, «um serviço e uma de trabalhar e cooperar genero-
Lusíadas está a ser substituído pelo apenas em momentos de excepção. tradicional!); mas é isso, chamem- vocação», que exigia um ideal, «a samente pelo bem e realização
Aquém-Mar da Europa, o que re- A nossa vida e a nossa saudade que lhe com o apelido que melhor pesquisa constante do mistério do do Homem, ao serviço de todos
presenta para a actual geração um tanto nos têm defi nido ao longo entenderem. Ela estabeleceu, nos homem e da Natureza» («O Univer- os homens.»
desafi o e uma nova aventura. Mais dos tempos, não vão certamen- seus alicerces constitucionais, que a sitário e a Universidade» (2001). In («Na vida univsersitária». Na Ho-
uma. […] O novo enigma que deno- te prosseguir pelas ondas do mar economia é dela, pois ela a dirige e Biobibliografi a. Sobre a Universida- menagem dos 80 anos – 28.11.1994.
minei Aquém-Mar, a Europa, é tão tenebroso e das paragens longínquas governa e a cada nação fi ca apenas de, p. 171). In Biobibliografi a. Sobre a Universi-
fl agrante e actual como difi cultoso. onde tínhamos família, amigos e o cuidado de conservar ou realizar “a dade (pp. 175-176).
É fl agrante porque ele toca talvez interesses e onde palpitavam quentes sua identidade”. “A realização da investigação é a
o nosso maior problema coletivo recordações nos relatos dos nossos Perante a história que nos moldou, luta mais bela, difícil e fecunda
actual. Tanto pela decisão dos Cronistas. O nosso belo e rico lirismo eu pergunto: Como é que podemos que se trava na vida e na alma do V – Discípulo
políticos que nos governam como deve mudar de tema. E o nosso cora- manter a nossa identidade própria universitário. Nesta realização sacia de Antero e de Vieira
pela globalização da economia, e ção e a nossa psicologia, em grande nestes novos horizontes se nunca a sua aspiração mais funda porque
pelo desaparecimento do império, parte, também. E os nossos interes- fomos capazes de antepor um senti- sente que, por ela, participa na Dois dos maiores, se não os
a criação da União Europeia parece ses e preocupações, igualmente. do económico válido e permanente primeira linha do desenvolvimento principais e maiores interlocuto-
ser uma fatalidade e tornou-se con- Mudar, mas como e em quê? A à nossa cultura generosa e humana? e na melhoria de condições de vida res do diálogo fi losófi co interior
sequentemente de aceitação geral. Europa, ou melhor, a união Eu- (pp. 29-30) […] dos homens. E ao mesmo tempo que de Lúcio Craveiro foram o Padre
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