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Diário do Minho QUARTA-FEIRA, 19 de novembro de 2014 Cultur III
Culturaa






fi gura humana do Professor Lúcio e outras povoações e locais impor- Eça comentariam hoje… este facto
o mais crucial parece-nos ser o que tantes que fi cavam ao pé do nosso espantoso e alarmante?»
dá título à obra: «Ser português». e só os visitamos acompanhados
Neste ensaio (Palestra proferida a pelos maiores. Lembro-me que «O diálogo intenso com os problemas da (Ser Português. Ensaios de Cultura
pedido de um grupo de estudantes percebi vagas referências a Lisboa Portuguesa, pp. 7-8).
universitários), uma espécie de auto- que era a capital, coisa que eu não metafísica, os fi lósofos contemporâneos
genesia espiritual, o Prof. Lúcio traça entendia bem mas também não e Antero de Quental abriram-me os olhos,
no horizonte dos seus e perante os me interessava aprender; e como III. – Do Além-Mar
olhos dos estudantes universitá- o meu pai era da fronteira, captava deram-me novo fôlego e novas perspeti- d’ Os Lusíadas
rios uma visão e uma trajetória da alusões aos espanhóis como gente ao Aquém-Mar
vida verdadeiramente reveladora distante que aí tínhamos vencido vas, comecei a ser senhor da minha vida, da Europa
da luminosa perceção do seu ser- numa batalha.
-no-mundo e do seu ser-com-os- Para mim, nessa altura, ser por- enfi m: a ser fi nalmente homem.» Fechado o ciclo do Império ou do
-outros. tuguês não era um problema ou Além-Mar, o Professor Lúcio Cravei-
uma interrogação. Era um dado ro reconhece e adverte que o novo
«Quando me convidaram a falar- indiscutível como a língua que desafi o do povo português é, agora,
vos sobre “Ser Português” vi nessa falava, os pais que tinha, a escola o do Aquém-Mar ou da «pátria
proposta um desafi o e uma espé- que frequentava e os jovens amigos abriram-me os olhos, deram-me no, não apoucava a “casa da cultura” económica» europeia.
cie de aventura. E como não sou com quem convivia e brincava. Era novo fôlego e novas perspetivas, de outros povos, mas confessava o
homem de fugir aos desafi os da uma “Maria vai com as outras” no comecei a ser senhor da minha gosto de viver na sua. “Hoje, o problema da Europa é can-
vida, logo no meu íntimo desper- feliz reparo do nosso povo. E o que vida, enfi m: a ser fi nalmente ho- dente e vivo. Quando, porém, em
tou a vontade de aceitar. […] Se se passou comigo, até aqui, não é o mem. Por isso, só agora, depois de “Se me telefonam e perguntam: 1965, João Ameal tratou este assun-
o conseguir, será apenas o meu que acontece com toda a gente? ser “Homem” eu podia começar a onde estou? Eu, culturalmente, to era ainda em grande parte, entre
testemunho e pouco mais; é que Houve, porém, um facto ou um responder mais satisfatoriamente à respondo: “estou em casa”. Co- nós, uma questão quase académi-
este assunto toca o mistério da vida “choque” que mudou por completo pergunta que me fi zeram: “o que é nheço evidentemente as outras ca. […] Mas antes de avançarmos da
de um povo – o português – o que a minha vida. Em 1934, tinha eu ser Português?”». “casas” e dialogo e até aprendo com Europa-ser para a Europa-projeto
foi e é sempre difícil traduzir em uns 20 anos, vim para Braga cursar outras culturas porque nunca me que é o problema central que hoje
palavras. fi losofi a para o primeiro ano do (Ser Português. Ensaios de Cultura deixei isolar mas vou sempre, como estamos vivendo, procuraremos
Quando David se sentiu às portas recém-fundado Instituto B. Miguel Portuguesa, pp. 65-67). dizem, “lá fora, cá dentro”. analisar uma objecção de base que
da morte proferiu esta estranha e de Carvalho. Até então eu não A cultura e os problemas portugue- nos ajudará a penetrar e compreen-
solene consideração: “Vou entrar passava de um aluno bem inten- ses são a casa onde vivo e respiro. der melhor a Europa-ser. Até aqui
no caminho de toda a terra”. De fac- cionado que estudava o que me II. – «A Cultura E, quanto me compete, desejo-a parece termos encarado apenas a
to nós nascemos sem nos pedirem mandavam estudar, repetia o que e os problemas bela e arejada. Não me interessa Europa como uma unidade, mas a
consentimento, somos envolvidos me mandavam repetir, enfi m corria portugueses
passivamente pela família, pelas para onde me mandavam correr. são a casa
tradições e pelo ambiente: “O cami- Providencialmente, nessa altura, era onde vivo e respiro»
nho de toda a terra”. Nesse sentido muito adoentado e fi cava entregue
é bem verdadeira a observação de a mim mesmo e aos meus livros, «Curioso», no melhor sentido
Paul Ricoeur: “Eu pertenço à histó- com a convicção, que um médico que o étimo da palavra sugere, a
ria antes mesmo de me pertencer”. pouco hábil me metera na cabeça, expe riência de vida e de convívio
Abrimos os olhos e logo buscamos de que a minha vida não iria muito cultural que a década de estudo
instintivamente segurança, satis- longe. Contra o costume, por ra- no estrangeiro lhe proporcionou
fação e contamos com a nossa zões circunstanciais, mas para mim – formação teológica (Granada),
mãe, o pai, a família. Crescemos. mais uma vez providencialmente, económica (Bilbau), social e política
Entendemo-nos espontaneamente logo no primeiro ano penetrei nos (Lovaina) –, foram uma oportu-
com as outras crianças e promo- caminhos da metafísica que me en- nidade marcante na evolução do
vemos, à margem dos adultos, mas tusiasmou e da fi losofi a contempo- pensamento do Professor Lúcio,
vigiados por eles, os nossos jogos, rânea que me alargou horizontes e sempre cuidadoso e bem sucedido
os nossos pequenos interesses. deu uma volta na minha cultura. Lia na arte de «observar e de apren-
Depois levam-nos à escola e apren- muito e encontrei, entre outros, um der» (Ser Português). Uma das não
demos a ler e a contactar com o autor que me marcou porque ele menos relevantes e não menos
novo mundo que nos é apresenta- desencadeava claramente um pro- valiosas aquisições dessa experiên-
do. A sociedade mete-nos à força, blema que ecoou com força dentro cia e oportunidade foi a descoberta
com mais ou menos habilidade, nas de mim mesmo: “Queria saber ao da identidade do «Ser Português»,
boas maneiras e nos estudos. Todos menos para que vim ao mundo”. de que nós, “os Portugueses somos
lidamos, então, com as contas, a Esse autor foi Antero de Quental e diferentes sem o pretender, sim-
gramática, a geografi a, a história, a confi ssão da profunda infl uên- plesmente porque somos”. No caso
etc. Os maiores já sabem estas coi- cia que ele exerceu na minha vida do Professor Lúcio, uma conclusão
sas e, sem nos consultarem, somos cultural deixei-a descrita no prólo- indubitável se lhe impôs: “se me
levados forçosamente pelo mesmo go do livro que lhe dediquei. Esse perguntam hoje onde quereria
caminho como fl or arrastada por diálogo intenso com os problemas viver, eu respondo: em Portugal”.
um açude. Nem nos passou pela da metafísica, os fi lósofos con- É evidente que o Professor Lúcio, viver na casa dos outros. Cada cul- Europa será una ou será plural? […]
cabeça que se pudesse crescer de temporâneos e Antero de Quental como pensador humanista moder- tura constrói e arruma a sua casa A Europa no início fi rmou-se em
outra maneira. Mas, pouco a pouco, o melhor que pode e sabe. E eu, duas concepções principais que
vamo-nos dando conta de que já embora humildemente, pratico o a identifi caram durante séculos. Pri-
podemos tomar algumas pequenas mesmo. Não compreendo, por isso, meiro, a ideia de “Império”. Depois
decisões, por exemplo na escolha ou melhor, tenho difi culdade em das invasões germânicas e, por
dos jogos e dos companheiros e, O Além-Mar d’Os Lusíadas está a ser compreender porque é que certa infl uência do antigo quadro jurí-
quando os pais o consentem, até substituído pelo Aquém-Mar da Eu- comunicação social e até nomes dico romano, a ideia de “Império”
nas horas de aprendizagem. Essas badalados, repercutem primaria- presidiu substancialmente à cons-
decisões não vão muito além, pois ropa, o que representa para a actual mente os interesses, os problemas tituição política, jurídica e social
os planos de estudo, os exames, o e as culturas alheias e só depois de Europa, quando esta se refazia
horário, tudo está determinado e geração um desafi o e uma nova aven- reparam na cultura que é a sua. ainda dos sobressaltos das inva-
nada mais nos é permitido senão tura. Mais uma. Parece que, para eles, a casa dos sões. […] A esta ideia de “Império”
meter a cabeça nessa construção outros é sempre melhor e o fato juntara-se outra ideia aglutinadora:
de arame com que a tradição nos que os outros vestem é mais acon- a de “Cristandade”. Este programa
leva e nos prende. Ouvimos falar de chegado. […] Como é que Antero e de “Fé e Império” estabeleceu-se e
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