Page 6 - Fasccilo 2 da Homenagem ao Professor Lúcio Craveiro da Silva promovida pelo Diário do Minho
P. 6




Cultur
VI Culturaa QUARTA-FEIRA, 26 de novembro de 2014 Diário do Minho








“A cultura e os problemas portuguesesA cultura e os problemas portugueses


são a casa onde viv
Manuel Gama são a casa onde vivo e respiro”o e respiro”
Professor
(Lúcio Cr
(Lúcio Craveiro da Silva)aveiro da Silva)
da UMinho
e antigo aluno
do Prof. Lúcio da FacFil, que de alguma forma ilustram a sua
permanente forma de ser. Em nome da especifi ci-
Craveiro Miguel
dade da “sua Faculdade” no seio da UCP, sobretu-
Gonçalves do quando comparada com as Escolas de Direito
R
Recordandoecordando e Gestão nascentes, reclamou, com êxito, não
Diretor
só a manutenção da dedicação exclusiva, mas
Lúcio CraveiroLúcio Craveiro da Faculdade também a tabela salarial indexada à das univer-
de Filosofi a sidades públicas. Quase em simultâneo, quando
nas “universidades novas” a chamada “formação
da Universidade
Tive a sorte de conviver de forma assídua com o Prof. em exercício” começava a ser uma realidade,
Católica / Braga
Lúcio Craveiro da Silva, durante mais de trinta anos. Pri- respondeu favoravelmente ao repto lançado
meiro, no âmbito da Faculdade de Filosofi a de Braga da pelos assistentes estagiários e assistentes, contra
Universidade Católica Portuguesa e, depois, na Univer- o parecer de alguns, para que idêntico processo
sidade do Minho, mas sempre em clima de amizade, que Do conjunto dos mestres mais destacados da “Escola fosse aprovado; fi nalmente, ante a distração e
incluiu também a persistente confraternização familiar. de Filosofi a Bracarense” – António Dias de Magalhães, a teimosia dos que persistiam na imitação dos
Digo “sorte”, pois no meu percurso vital, para além de Cassiano Abranches, Diamantino Martins, José Bace- modelos vigentes, sobretudo na parte continental
outros casos de especial apreço, o Prof. Lúcio foi das lar e Oliveira, Júlio Fragata, Vitorino de Sousa Alves, da Europa, com a sua persistência e tenacidade,
pessoas que, pelo seu exemplo, pela sua atitude, pela sua Roque Cabral e Lúcio Craveiro da Silva (mestres de fez vingar a visão anglo-americana, conseguindo,
cosmovisão, me leva a dizer que sem o seu convívio a idêntico prestígio, jesuítas ou não, como António através de uma combinação pouco provável, a
minha vida teria sido diferente. Referirei algumas dimen- Freire, Manuel Morais e Amadeu Torres não integram, aprovação do Curso de Filosofi a e Desenvolvi-
sões da sua pessoa que, ao serem assumidas por mim, porém, esta escola) –, apenas não conheci o primeiro. mento da Empresa, na FacFil.
continuam a infl uenciar os meus horizontes e a servir de Dos restantes, fui aluno de Júlio Fragata, Vitorino de Sacerdote por vocação e fi lósofo de formação,
bússola na procura dos caminhos mais corretos. Sousa Alves e de Roque Cabral, o que signifi ca que, representou a síntese harmoniosa entre a Fé
O equilíbrio, a harmonia, a paz, eram traços distintivos relativamente a Lúcio Craveiro da Silva, o meu tes- e a Cultura – “a cultura e os problemas portu-
do seu caráter. Suportados onde? Por um lado, nos seus temunho, se, por um lado, pode ter o distanciamento gueses são a casa onde vivo e respiro” –, sendo,
educadores. Ele próprio rememorou de forma escrita crítico sempre necessário a qualquer intento de objetivi- consabidamente, uma referência na história do
esta dimensão. Do seu professor primário, fi cou-lhe o dade, por outro, poderá não ter a proximidade que um de- pensamento fi losófi co português e em temas
entusiasmo pelas coisas. Dos seus familiares, herdou poimento desta natureza não deixa de também reclamar. de natureza ética e social. Simultaneamente, era
valores sólidos: do avô, o sentido de justiça; do pai, a Das três vezes em que foi Diretor da FacFil, apenas um homem tão tolerante quanto fi rme nas suas
seriedade de caráter, a honradez; da mãe, o equilíbrio, a tive o privilégio de conviver com o Prof. Lúcio Cra- certezas e convicções; permanentemente aberto
delicadeza no trato, o saber escutar. Mas, entre todos, a veiro já nos últimos mandatos, sendo eu, então, um ao diálogo, mas nem por isso menos pragmático;
fi gura mais marcante – como ele confessava – foi a mãe, jovem assistente estagiário. Honrou-me com a sua defensor convicto do progresso e da inovação, mas
sobretudo no saber aceitar as pessoas, no ser amigo das presença (e dignifi cando o ato), ao presidir ao júri que sem qualquer cedência em relação à tradição.
pessoas. Depois, aquele seu equilíbrio tão caraterístico, apreciou as minhas Provas de Aptidão Pedagógica e Viveu totalmente dedicado à cidade e às suas
enraizava numa áurea de silêncio e refl exão, que ele bus- Capacidade Científi ca, e do qual faziam parte outros universidades, e estas, de uma forma geral, têm
cava “disfarçadamente”. Para além do perfi l de intelectual, dois vultos da universidade bracarense: os Profs. Doutor sabido ser-lhe gratas. Olhando-o diariamente no
ele tinha um fundo místico. Aliás, os cargos que exerceu Amadeu Torres (UCP-UM) e J. Azevedo Ferreira (UM). meu gabinete de trabalho, sinto-me um aprendiz
(e foram muitos: dentro da Companhia de Jesus e no Desse período (fi nal da década de 80, início da de 90), que tem o dever de seguir-lhe as pegadas num
mundo civil) foram uma segunda pele; a sua assunção respigo breves marcas da sua passagem pela Direção caminho que, afi nal, todos deviam tentar trilhar. ◗
era uma resposta externa e interna à nobre função do
“serviço”. Nunca o vimos na expetativa de esperar qual-
quer recompensa.
Há outra faceta muito caraterística, que podemos deno-
minar de vertente diplomática. Como era extremamente A o
A obra do Prof. Lúcio Craveirobra do Prof. Lúcio Craveiro
arguto na “leitura” que fazia das pessoas (expressa em
observações certeiras, sem serem ofensivas, que muitas
constitui um marco relevanteco relevante
vezes me confi denciava no percurso das boleias, em constitui um mar
que nos fazíamos companhia), tinha uma sensibilidade
no panor
especial no trato pessoal e na forma como contribuía no panoramaama
para resolver as difi culdades que iam aparecendo. Ele
próprio confessava a sua admiração por ser chamado da Filosofi a em Portugal a em Portugal
da Filosofi
para resolver situações difíceis.
Por fi m, admirava-lhe ainda a estima, sem desânimo,
por Portugal. Mas, contrariamente à tónica da menta-
lidade do comum dos portugueses, não lhe ouvíamos Desde o início da minha carreira académica, em 1982, comecei a ter como
lamentações ou apelar “ao meu tempo”. O seu olhar referência de excelência a personalidade e a obra do Prof. Doutor Lúcio Pedro Calafate
tinha como horizonte o futuro e, especialmente, as Craveiro da Silva. Universidade de Lisboa
novas gerações. A obra de Lúcio Craveiro constitui um marco da maior relevância no pano-
Em conclusão, a memória do Prof. Lúcio que mais fre- rama da Filosofi a em Portugal, já de si não muito profícuo. Professor Catedrático do Departamento
quentemente me ocorre ao espírito é a sua sabedoria Lúcio Craveiro não foi apenas um historiador da fi losofi a, rigoroso e exigente, de Filosofi a da Faculdade de Letras
aliada à simplicidade, a sua tolerância e o seu manso mas um pensador com percurso próprio e profundamente sugestivo, tendo- da Universidade de Lisboa
sentido de humor. ◗ se também afi rmado como professor e dedicado gestor universitário, com e Diretor do Centro de Filosofi a
Braga, outono de 2014 vincado pendor institucionalista. ◗ da mesma Universidade.
   1   2   3   4   5   6   7   8