Page 5 - Fasccilo 2 da Homenagem ao Professor Lúcio Craveiro da Silva promovida pelo Diário do Minho
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Culturaa
Diário do Minho QUARTA-FEIRA, 26 de novembro de 2014 Cultur V








Fé e Cultur
Fé e Cultura de mãos dadasa de mãos dadas


Convivi com o P. Lúcio Craveiro da Silva na mesma comunidade dos a sua fi rmeza como trincheira ou castelo, mas tinha a arte de criar
jesuítas ligados à Faculdade de Filosofi a de Braga, durante uma vinte- à sua volta um átrio de compreensão, diálogo e acolhimento. Cer-
na de anos, em períodos distintos. Foi meu Superior local e também tamente que não estava de acordo com todos, mas as suas ideias e
Provincial, quem me admitiu na Companhia de Jesus. convicções nunca foram arma de arremesso, mas pontes de en-
A proximidade amiga pode difi cultar-nos a imparcialidade, mas julgo que contro entre diferentes margens.
o meu testemunho poderá pecar mais por defeito do que por excesso. O padre e jesuíta Lúcio Craveiro da Silva, que o foi a cem por
Sempre encontrei nele um homem afetuoso, sem medo de usar o cora- cento, foi também o escritor insigne, o académico notável, o rei-
ção, amigo dos seus amigos, mas liberto, sem ter de arranjar algum tor magní fi co, o professor culto, o intelectual profundo, tudo isto
grupo de adversários, um seu «partido de oposição». Era um coração também a cem por cento. Fé e cultura viveram em complementar
P. Manuel Morujão sem fronteiras, acolhedor e aberto ao encontro e ao diálogo com pes- harmonia na sua pessoa. A sua vasta cultura, em diversos ramos
soas de diferentes quadrantes: de esquerda ou direita, crentes, indife- do saber, não desvirtuou a sua fé em Cristo, «perfeito Deus e per-
Superior rentes ou ateus. Com ele, todos se podiam sentir em casa, sem abdicar feito homem», sendo um religioso de piedade sólida, um homem
dos Jesuítas das suas ideias, convicções e fé. de oração que celebrava diariamente a Eucaristia e cultivava uma
Mas o coração do P. Lúcio estava ligado a uma grande cabeça. Homem particular devoção a Nossa Senhora. Mas também a sua fé não fez
em Braga
de invulgar cultura, de vistas largas, em que o global e o pontual ti- sombra nem desvirtuou a cultura, sendo uma pessoa perfeitamente
nham uma boa relação de complementaridade. Usando uma imagem: integrada no mundo universitário, académico, cultural e social.
quando contemplava uma árvore, não esquecia a fl oresta; quando Por tudo isto, o padre Lúcio pertence ao grupo de «aqueles que,
olhava para a fl oresta, não perdia de vista as árvores concretas. um por obras valerosas, se vão da lei da morte libertando». Por isso é
homem de fé arraigada, sacerdote e jesuíta, e de convicções, não usava que o lusíada Lúcio Craveiro da Silva continua a ser tão atual. ◗






P
Para um retrato de Lúcio Craveiro da Silvaara um retrato de Lúcio Craveiro da Silva



Conheci pessoalmente o Professor cortês, de discurso parcimonioso, acolhe- em tempo oportuno, uma Universidade
Lúcio Craveiro da Silva em Outubro de dora, prudente e serena. À medida que as no seu império ultramarino e que tivesse
1976, quando tomei a decisão, perante nossas relações pessoais e universitárias se confi nado praticamente durante séculos o
a anarquia pós-revolucionária que se foram aprofundando, esta primeira ima- ensino universitário a uma única institui-
instalara na Universidade de Coimbra, gem confi rmou-se e enriqueceu-se, mas ção. Coerentemente, dedicou grande parte
de vir ensinar, em regime de comissão fui descobrindo e admirando na persona- da sua vida à criação e ao desenvolvi-
de serviço, na nova Universidade do lidade do Professor Lúcio Craveiro outros mento inovador de instituições do ensino
Minho, que então iniciava formalmente predicados que muito contribuíram para superior, desde o Instituto Superior Econó-
os seus inovadores cursos de Forma- fundamentar e fecundar a nossa longa mico e Social de Évora até à Universidade Vítor Aguiar e Silva
ção de Professores na área de Línguas amizade: a dedicação à causa da educação Católica Portuguesa e à Universidade do
e Literaturas Modernas. e em particular ao desenvolvimento do Minho. Em todas estas realizações institu- Prof. Jubilado
Relembro com emoção as modestís- ensino universitário; o gosto pela cultura cionais, investiu o Professor Lúcio Cravei-
(e antigo Vice-Reitor)
simas instalações, na rua D. Pedro V, fi losófi co-li terária; o empenhamento na ro, para além do seu saber, a sua singular
da Universidade do Minho
da Unidade Científi co-Pedagógica de solução justa dos problemas sociais; o sabedoria, o seu apurado conhecimento
Letras e Artes, da qual era presiden- afecto profundo, não patrioteiro, ao país das circunstâncias, das conjunturas histó-
te o Professor Lúcio Craveiro, onde em que nos coube nascer. ricas e dos homens. Era um pensador que,
trabalharam durante vários anos, com Lúcio Craveiro sabia bem que Portugal sem prejuízo dos seus ideais religiosos e última década do século XX. Antero de
admirável espírito de missão e exem- possuía escassos recursos económicos fi losófi cos, foi um homem de acção – um Quental foi o poeta-fi lósofo que mais
plar competência científi ca e peda- naturais e que por isso o seu desenvol- homem de acção modelarmente coerente, admirou e a cuja obra dedicou desve-
gógica, jovens docentes que viriam a vimento económico-social tinha de se justo, dialogante, discreto e prudente. lada atenção. Em Antero confl uíam os
realizar brilhantes carreiras académicas fundar na qualifi cação cultural, científi ca Não posso deixar de me referir ao profun- grandes vectores que sempre nortearam
e aos quais se fi cou a dever o desen- e técnica dos seus meios humanos, o do gosto e ao interesse genuíno com que a actividade espiritual e mental de Lúcio
volvimento, nos planos do ensino e da que equivalia a atribuir à Escola, desde o o Professor Lúcio Craveiro me falou sem- Craveiro: a indagação metafísica; o culto
investigação, das Letras e das Ciências ensino básico ao ensino universitário, uma pre da literatura e dos estudos literários – da poesia fi losófi ca; a preocupação com
Humanas na Universidade do Minho. relevância cimeira no quadro de qualquer gosto e interesse de que deixou múltiplos a justiça social; o anseio de redimir Por-
A imagem que guardo dos primei- política nacional. Numerosas vezes ouvi testemunhos na sua actividade docente e tugal de uma decadência secular. ◗
ros encontros com o Professor Lúcio Lúcio Craveiro lamentar que Portugal, ao sobretudo em diversos ensaios felizmen-
Craveiro da Silva é a de uma pessoa contrário da Espanha, não tivesse criado, te coligidos em volumes publicados na Setembro de 2014


Prof. Lúcio Craveiro e Prof. Aguiar e Silva


Segundo o Professor Lúcio, «uma Universidade vale o que valerem os seus pro- distraída ou confusa quando deixou que o Professor Aguiar e Silva preferisse
fessores; tudo o mais vem por acréscimo» («Nos 25 anos dos Cursos de Letras esta Universidade. É que a sua preferência foi decisiva para o desenvolvimen-
e Ciências Humanas da Universidade do Minho», 2004). Ao declarar esta sua to mais rápido e progressivo da Unidade de Letras e Artes – hoje Instituto de
convicção, um dos nomes que tinha em mente era precisamente o do Professor Letras e Ciências Humanas – não só do ensino do português (…), mas de todo
Aguiar e Silva, que trazia consigo da Universidade da Lusa Atenas para a tenra o Instituto. Eu ainda apareci timidamente, no Guia de 1980-1981, à frente das
Universidade do Minho um precioso património de saber, de saber fazer e de Letras e das Artes, mas já então no Centro de Estudos Portugueses (antecessor
saber ensinar. Deste eminente co-fundador dos Cursos de Letras e Ciências do Centro de Estudos Humanísticos) fui substituído com vantagem indiscutível,
Humanas na Universidade do Minho, diz o Professor Lúcio: «Coimbra estava sem humildade o digo, pelo Prof. Aguiar e Silva como presidente.» (Ibid.). ◗
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