Page 3 - Fasccilo 2 da Homenagem ao Professor Lúcio Craveiro da Silva promovida pelo Diário do Minho
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Cultur
Diário do Minho QUARTA-FEIRA, 26 de novembro de 2014 Culturaa III








A responsabilidadeesponsabilidade
A r


de ser o primeir
de ser o primeiroo




Distingue-se na história das Aca- petência universitária, da sua capacidade
demias Universitárias o facto de o de ver o todo de um projecto que nascia
Doutor Lúcio Craveiro da Silva ter e do seu engenho ao integrar diferentes
sido o primeiro reitor de Portugal visões para a construção de uma identida-
Damião Pereira eleito por sufrágio directo. Um por- de nacional. Eram tempos onde o conheci- D. Jorge Ortiga
Diretor menor que se reveste de um signifi - mento hospedava a promessa de construir
cado muito particular. um futuro melhor. Arcebispo Primaz
do Diário do Minho
Em primeiro lugar, foi o reconheci- Em segundo lugar, gostaria de salientar
mento inequívoco de uma liderança outra dimensão estruturante da vida do
O Prof. Doutor Lúcio Craveiro da Silva,
madura quando as universidades Doutor Lúcio Craveiro da Silva. Ninguém faz vida e que simultaneamente grava
de que amanhã se comemora o 100.º
viviam ainda tempos de gestação. ignorava a sua vocação e a sua condição presença nos círculos estruturantes de
aniversário do nascimento, foi (e conti-
Dadas as abundantes provas do de padre. Ao mesmo tempo, jamais alguém qualquer biografi a humana: cultura,
nua a ser) uma das mais ilustres e pres-
seu valor, em múltiplas ocasiões ousou afi rmar que impunha as suas con- economia, política e família. São espa-
tigiadas fi guras da cultura portuguesa
e circunstâncias, o génio de Lúcio vicções. Vários testemunhos relatam que ços concretos onde a fé deve assomar-
– e, por maioria de razão, da “cultura
Craveiro da Silva foi reconhecido interpelava, ao invés, pelos valores em que se em todo o seu esplendor.
bracarense”.
individualmente pelos seus pares. acreditava, mesmo quando o silêncio das Poderá este diálogo cultural e religioso
A sua ação como diretor da Faculda-
Quando alguém abre horizontes é, palavras se sobrepunha ao testemunho das nutrir um estilo eloquente de perpetuar
de de Filosofi a de Braga (embrião da
com naturalidade, tido como uma atitudes e comportamentos. a memória do Professor Lúcio Craveiro?
Universidade Católica Portuguesa),
referência. Neste caso, podemos Os cargos de responsabilidade, quando so- Estou certo que sim. Assim como estou
que ajudou a fundar e a desenvolver, e
afi rmar que se constituiu como o licitados, devem ser ocupados sem medo. certo – ao olhar para o testemunho
como reitor da Universidade do Minho
alicerce seguro no edifício de uma Neste sentido, gostaria de evocar o Progra- deste padre jesuíta – que os valores e
(e, posteriormente, presidente do seu
nova universidade envolta em desa- ma Pastoral da Arquidiocese centrado nas a consciência católica comungam dos
Conselho Cultural), seria, por si só, mo-
fi os. Fê-lo em virtude da sua com- exigências da Fé que se faz vida. Fé que se mesmos ideais do ensino superior. ◗
tivo mais que sufi ciente para merecer as
mais subidas honrarias e para perpetuar
a sua memória – que Braga, felizmente,
soube já referenciar ao atribuir o seu
nome a uma das suas mais importantes
Lúcio Craveiro da Silva:aveiro da Silva:
valências culturais: a Biblioteca Lúcio Lúcio Cr
Craveiro da Silva.
Todavia, o agora homenageado não se
Um Homem de todos os temposodos os tempos
distinguiu apenas como gestor de insti- Um Homem de t
tuições académicas que transformaram
por completo o panorama cultural
bracarense e nacional. Ele foi também “Pègadas, no caminho da vida, são notável, que dedicou a sua vida à causa
um Académico de nível superior, com momentos ricos que passaram e pública.
um “Pensamento” peculiar no âmbito permanecem vivos como teste- Foi o primeiro Reitor eleito em Portugal,
da Filosofi a e da Cultura Portuguesa. E munhas da caminhada. Conservei facto que só de si merece especial desta-
foi também um sacerdote (jesuíta) de apenas algumas, quase ao acaso; que e muito nos enche de orgulho. Ilustre
grande e reconhecida espiritualidade, as outras, a maioria, resolvi, bem personalidade Bracarense, o seu nome
que assumiu em pleno a sua “condição” ou mal, apagá-las.” não podia estar dissociado do projecto Ricardo Rio
de padre – como, aliás, deixou inequi- comum entre a Câmara Municipal de Bra-
vocamente expresso no seu único livro Lúcio Craveiro da Silva foi um ga e a Universidade do Minho, tornando- Presidente da Câmara
de poemas (“Pègadas no Caminho”), Homem de ‘pegadas’ únicas, cujas se o patrono da Biblioteca Lúcio Craveiro Municipal de Braga
nomeamente quando afi rma: “Senhor, marcas deixadas pela sua passa- da Silva.
/ és a minha única esperança / na dor e gem irão prevalecer infi ndavel- Condecorado como Grande Ofi cial da Or-
na alegria, / na vida e na morte / desde mente. Uma pessoa que trilhou o dem da Instrução Pública privilegiava o
que ouvi a Tua voz”... seu caminho num longo percurso diálogo e deixou um rasto de tolerância, positiva na sociedade e, no dia em
Finalmente (mas não menos impor- repleto de sucesso, tornando-se agregando pensamentos e convicções, que se celebra o primeiro centenário
tante!), o Prof. Lúcio Craveiro foi um numa referência para todos, de- tornando-se num ícone moral da socie- do seu nascimento, esta homenagem
“homem de afetos”, como lucidamente sempenhando um papel prepon- dade atual. sublinha o enorme contributo desta
salientou o Prof. Aníbal Alves em artigo derante para Braga. Lúcio Craveiro da Silva elevou o patrio- notável fi gura Bracarense.
publicado, na passada semana, neste Homem insubstituível, fi gura tismo dos seus textos, clamando a Liber- A sua história é conhecida e reconhe-
mesmo suplemento. A sua ímpar ca- tutelar da Cultura nacional e local, dade, e como é timbre dos verdadeiros cida por muitos, foi construída com
pacidade de relacionamento com os deixou-nos uma obra que conside- notáveis, mais do que um homem do seu determinação, força, carisma e cora-
outros é por todos reconhecida – e ro simplesmente memorável. Filó- tempo, ele foi um homem de todos os gem, que veio revelar a pessoa apai-
salientada nos diversos “testemunhos” sofo, Professor, Sacerdote, Poeta... tempos, distinguindo-se pela sua lucidez xonada por tudo aquilo que fazia.
que divulgamos neste número do Lúcio Craveiro da Silva congregou e audácia, que não cediam às modas do Digno do nosso respeito, da nossa
caderno “Cultura”, a cujos autores em si várias ‘personagens’, todas momento, nem se deixavam levar pelo gratidão e do nosso reconhecimento,
agradecemos a disponibilidade para se elas de um relevo incomparável. aplauso fácil das maiorias dominantes. a sua trajectória é um exemplo para
associarem ao “Diário do Minho” nesta Braga é uma Cidade que honra Reconhecimento e gratidão são actos nós de superação, determinação,
singela homenagem a um dos Homens o seu legado, e a aposta na Cul- que enobrecem o ser humano. Os bons optimismo e rectidão, lembrando-nos
que, pelo que fez em vida, conseguiu tura terá sempre que contar com exemplos precisam passar por esse que é sempre possível dar o nosso con-
vencer a morte! ◗ o contributo insofi smável deste processo, pois espalham uma semente tributo para uma sociedade melhor. ◗
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