De Insula Romana a Biblioteca:




Dois milénios de história

Terá sido nesta época que adquiriu o nome de Casa Grande de Santo António das Travessas. Ao Longo do século XIX e até ao sec. XX

pertenceu a uma das famílias nobres da cidade. Na década de 40 foi comprada pelo Estado que ai instalou um centro de acolhimento de mendigos, conhecido como Albergue Distrital.


0 espaço ocupado pela Biblioteca é um dos pontos mais estudados da cidade de Braga, pelo que é possível reconstruir a sua história desde a fundação de Bracara Augusta, ou seja, desde a primeira

década antes de Cristo.

No atual Largo Paulo Orósio, erguia-se o Forum da urbe romana. Do canto noroeste do Forum, saíam duas ruas ortogonais entre si. Para norte, um cardus (alinhamento  sul-norte) com a largura de 7 metros e ladeado por pórticos. Para leste, o segmento oriental do decamanus maximus. Estas duas ruas, que se destacavam pela sua monumentalidade e tráfico intenso, delimitavam uma insula, uma unidade habitacio­nal, quadrada, de 120 por 120 pés, ou seja, de 35,5 metros de lado. A fachada norte da insula dava para uma rua secundária e a fachada leste para outra, que perdurou na Rua de Santo António das Travessas que, provavelmente, conserva a mesma largura  desde a época romana.

largo.jpg Fig.2 Esquema do Forum (Largo Paulo Orósio)                 Clique para ampliar

Devido ao saque de pedra registado em 1880, quando se abriu a Frei Caetano Brandão e se ampliou o logradouro, pouco se conservou da estrutura arquitetónica da insula. Poderia, even­tualmente,  ser análoga à insula das Carvalheiras, com lojas abertas para os pórticos e uma zona residencial mais resguardada, em redor de um peristilum, ou seja, de um pequeno pátio a céu aberto. De facto, apenas se conservaram as bases de arcadas dos pórticos, o alinhamento da rua.

Tal como outras zonas da cidade, também esta insula terá sofrido remo­delações no século II depois de Cristo. No Baixo Império  (sécs. III/IV) e na Antiguidade Tardia (sécs. V/VIII) manteve-se como núcleo residencial e comercial.

Fig  2.1 - Reconstituição do pórtico (da autoria da arquitecta Luís Freitas)




Um dos compartimentos, que dava para o decamanus maximus, era uma taberna, onde serviam aos clientes alimentos quentes e vinho, tendo sido recolhida uma ânfora quase intacta. Entre os séculos VIII e XI ficou incluída na pequena área urbana, ainda defendida pela poderosa muralha erguida em finais do século III, e que envolvia a norte a Catedral. Na Baixa idade Media, de acordo com os documentos disponíveis pertencia a cónegos.

Fig. 3. Ânfora encontrada nas escavações da biblioteca*                          (Clique para ampliar)

Durante algum tempo, no século XV, entre 1467 e 1496, funcio­nou, na casa, uma sinagoga, conforme se deduz de uma inscrição gravada num arco de volta que­brada que existia no piso térreo e que foi reconstituído(ver mais aqui). Durante os séculos XVII e XVIII a fachada principal teve obras que lhe conferiram o estatuto de casa apalaçada, com duas torres.


Fig. 4 - Edificio onde se encontra actualmente a BLCS Bracara Romana

Atualmente este mesmo arco encontra-se presente na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, tendo sido reconstruído com as pedras originais, embora não esteja localizado do mesmo local original do edifício medieval.

Na imagem apresentada ao lado destaca-se um ideograma hebraico que testemunha a utilização da antiga Casa Grande de Santo António das Travessas como sinagoga.


Poderá visitar este arco na BLCS localizado na Sala de Áudio-Vídeo do piso 0.


Veja o significado da inscrição AQUI

20140217_165401.jpg Sabia que: Fig. 5 - Antiga rua Verde tal como existia antes de ser aberta a rua Frei Caetano Brandão(excerto mapa de fundo 1883-1884).Representado por circulo a localização do edifício da BLCS.
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Por determinação do Rei Dom João I, a 30 de setembro de 1400, constitui-se a Judiaria de Braga, conhecida de Judiaria Velha, reunindo

famílias judaicas na Rua do Poço, junto à Sé, e na Rua da Erva (depois chamada Rua de Santa Maria e atualmente Rua Gonçalo Pereira).Em maio de 1466 a Judiaria de Braga foi deslocada para umha Judiaria Nova a teor dum acordo assinado entre o cabido e a comunidade hebraica. O novo bairro judaico situava-se em ruas mais afastadas, na Rua da Judiaria Nova (atual Rua de Santo António das Travessas). Tratava-se dum arruamento judaico próprio, encerrado por portas.



Esta deslocação trouxe problemas pois, para além de motivações religiosas, houve interesses económicos do próprio cabido em renovar os arrendamentos das casas deixadas pelos Judeus. Quem ficou descontente com esta decisão foi a paróquia de Santiago da Cividade, a quem a vinda de Judeus representaria uma queda dos seus ingressos (esmolas). Para compensar estas perdas, através duma sentença ratificada pelo Chantre do Cabido bracarense, em janeiro de 1468 os Judeus deveram pagar uma quantia anual de 200 reais à paróquia.

Na altura de 1466 e 1509 aponta-se um total de 52 judeus, entre os quais seis conversos. Entre eles havia três rabinos, três físicos ou médicos, quatro ourives, dois mercadores, algumas mulheres com o trato de honra.


judiarias_braga.png Fig. 7 Localização das Judiarias em braga (Clique para ampliar) Fig. 6 -  Entrada da rua de Santo António das Travessas

Ao cabo do tempo, a Rua da Judiaria Nova (R. de Santo António das Travessas) tornou-se na rua "proibida" de Braga, ao albergar as "toleradas" na qual as mulheres da vida esperavam ou atraíam a clientela na soleira das portas.

Em 1993 dois edifícios da R. Santo António das Travessas, números 34 a 40, foram declarados Imóveis de Interesse Público(Decreto n.º 45/93, DR, I Série-B, n.º 280, de 30-11-1993)*


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Fig.1 - Rua de São Paulo (data não defenida). Imágem gentilemte cedida por Museu D. Diogo de Sousa